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Paisagens sonoras

Uma paisagem não é composta apenas de cores, estruturas e texturas, elementos como odores e sons também fazem parte dela e muitas vezes têm a sua importância ignorada.


A paisagem sonora está presente em todos os ambientes, nós apenas não a percebemos e não damos o devido valor à sua relevância ecológica. Na natureza, os sons são essenciais para a sobrevivência das espécies. É por meio dos sons que as espécies se comunicam e consequentemente se reproduzem.
 

Quando falamos de poluição sonora é mais fácil de relacionar com o ambiente marinho, onde barcos e lanchas produzem ruídos com seus motores e influenciam na comunicação das espécies que habitam os oceanos. Mas também produzimos este tipo de poluição em outros ambientes.
 

As aves, por exemplo,  são animais que vocalizam muito e estão sempre se comunicando, seja para conversar entre seu bando ou para encontrar parceiros em época de reprodução. Assim, barulhos de origem antrópica¹, como motores de máquinas ou automóveis, ou mesmo música alta, podem interferir em seu comportamento natural.
 


 

Dario Sanches, 2007.jpg

Na cidade de São Paulo, o sabiá-laranjeira (Turdus rufiventris) tem cantado muito de madrugada, antes do sol nascer, um comportamento que antes não era apresentado pela espécie e agora é essencial para a sua sobrevivência. Com a grande presença de barulhos de ônibus, automóveis, construções e outros empreendimentos, esta espécie não consegue se comunicar durante o dia, assim aproveita um período de maior silêncio para demarcar seu território e atrair fêmeas para reproduzirem.

 

Todas as espécies possuem características diferentes em suas vocalizações, que podem ser mais eficientes se executadas em certas horas do dia ou com certa constância. Dependendo do timbre, da frequência e do ambiente, a propagação e ressonância podem ser diferentes. Este é um dos motivos, juntamente com o comportamento da espécie, pelos quais os animais vocalizam em horários diferentes.
 

Em um ambiente menos antropizado, algumas espécies intercalam suas vocalizações para uma não interferir na outra e todas conseguirem alcançar seu objetivo. Ao estarmos em uma área afastada da cidade, onde podemos ouvir a natureza, percebemos que ao passar um carro os sons emitidos pelas espécies que ali habitam diminuem: elas se silenciam para não competir com o automóvel passando de forma a não gastar energia desnecessariamente.
 

Mas não são apenas sons de automóveis e motores que interferem na paisagem sonora. Música alta ou pessoas gritando também dificultam a comunicação entre os animais. Desta forma é importante nos conscientizarmos sobre a influência dos nossos ruídos na natureza. Barulhos como os gerados por carros e aviões ainda afetam o comportamento animal, aumentando o estresse e alterando atitudes durante a busca por alimento. Já no caso das plantas, elas acabam afetadas pois o barulho pode fazer com que animais polinizadores – como abelhas, borboletas e aves – ou aqueles que se alimentam de vegetais (e acabam espalhando suas sementes) mudem suas rotas.

Glossário

 

1. Resultante da ação do homem.

 

Para mais informações:


CHAPOLA, R. Qual o passarinho que canta todo dia antes de amanhecer em SP. Veja São Paulo. 2020. Disponível em: https://vejasp.abril.com.br/cidades/passarinho-madrugada-sp/
KRAUSE, B. A grande orquestra da natureza: descobrindo as origens da música no mundo selvagem. 1ed. Rio de Janeiro. Zahar. 2013.
RONCOLATO, M. Como o barulho causado por humanos ameaça animais e plantas. Nexo. 2017.Diposnível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/05/06/Como-o-barulho-causado-por-humanos-ameaça-animais-e-plantas